ÓBA

Quem é Óba?

Oba é um Orishá que representa o amor reprimido e o sacrifício pelo ser que ama, o sofrimento, e simboliza a fidelidade conjugal. Está relacionada aos lagos e lagoas. Junto com Oyá e Yewá habita os cemitérios e representam as guerreiras temerárias. Ela se diferencia de Yewá que vive dentro do féretro, guardando as tumbas.

Óba é a Orishá do rio que leva o seu nome, originário da terra Takuá, onde seu culto se estendeu pela terra de Òyó e Tapa. Seu nome provém do Yorubá Òbá (Òbè: sopa – Obá: rei), literalmente “La de la sopa del rey, ou seja, A sopa do rei”. É um orishá de cabeça e como orishá de adimú se recebe com o tempo por seu caráter ermitão e emocionalmente instável. Seus Otás são 9 claras e em forma plana semelhantes ao contorno de uma orelha.

Filha de Obatala e Yembó, irmã de Oyá e Yewá, amante de Shangó e por ele cortou uma de suas orelhas e por isso se viu exilada, logo foi para o monte e posteriormente viveu na solidão do cemitério. Também teve um envolvimento com Ogun, a quem lhe entregou a bigorna e este lhe ensinou a guerrear.

O pai de Óba lhe disse que já era tempo de escolher seu marido e que teria que encaminhar sua vida, pois os ensinamentos haviam sido produtivos e que ele queria vê-la feliz. Shangó e ela se conheceram e no mesmo instante surgiu uma atração, um amor majestoso, profundo. Entretanto ele vivia com Oyá, uma mulher de personalidade muito forte, parecida com a dele, mas Shangó sabia que os atributos, benefícios e qualidades que Óba tinha, favoreceriam seu matrimônio e fariam de seu reino, um reino mais forte e poderoso.

No início sua união foi feliz. Shangó deixou suas andanças com Oyá e se dedicou por inteiro a Óba. Em seu palácio respirava-se bondade e tranquilidade. Óba descia todas as manhãs ao rio para se encontrar com sua irmã Oshún e as duas faziam confidências e contavam pequenos segredos enquanto se banhavam nas águas doces e cristalinas com seus peixes coloridos. Em alguns momentos eram como aparições marcadas no arco-íris das cascatas.

Oyá de longe observava Shangó e Óba e não podia conter sua inveja. Por que essa mulher tão bela, e por acréscimo sua irmã, havia conseguido o que ela nunca havia alcançado com seus encantos e feitiçarias: casar-se com Shangó. Pensou muito em como reconquistar o amor de Shangó, o qual não a deixava tranquila em suas lembranças. Um dia deitada, adormeceu e teve um sonho fatídico sobre sua vingança. Em espírito se transportou para a morada dos Iku e dos Eguns e em um cemitério desértico, onde o vento balançava a copa das árvores e se ouvia o grito estridente das aves de rapina, encontrou Oyá uma solução para reconquistar o amor perdido e descansou pela primeira vez depois de muitos dias.

Na manhã seguinte foi ao encontro de suas irmãs no rio; conversou e se divertiu com elas e ganhou a confiança de Óba, tão ingênua e doce. Mas não enganou a Oshún, quem receosa alertou sua irmã Óba sobre a estranha conduta de Oyá, mas Óba não lhe deu ouvidos. Frequentemente Oyá dava a Óba receitas das comidas favoritas de Shangó, que a jovem zelosa cozinhava para seu marido. Até um dia em que a única coisa que Óba tinha para cozinhar era farinha de milho. Oyá lhe disse: “Não fiquei nervosa que vais conseguir resolver isso como eu resolvi uma vez. Você tem que cortar uma das orelhas e preparar com o milho. Tempera-se com todos os tipos de ervas”. Nesse dia Oyá estava com um pano de 9 cores que lhe tapava as orelhas. Óba achou o pano de Oyá meio estranho, mas estava entusiasmada em agradar seu homem e se apressou em cortar uma de suas orelhas e preparou com ela um delicioso caldo de milho.
Quando Oyá viu Shangó se aproximando, ela se converteu em um raio. Era tamanha a felicidade de Oyá que arrasou com fogo parte dos bosques.

Quando Shangó chegou em seu palácio encontrou a mesa lindamente servida, com abundância de flores vermelhas como o sangue. Abraçou sua mulher e lhe perguntou o que havia para comer, pois estava com uma fome atroz. Óba lhe serviu o seu prato favorito o qual ele comeu com gosto, sem deixar de observar sua mulher a qual se encontrava diferente. Ao perceber que Óba levava um pano, coisa que nunca usava, pois Shangó gostava de ver suas tranças largas e seu cabelo sedoso, pediu que ela tirasse o pano. Ao ver-la sem uma orelha tremeu de raiva, pois ele, perfeito em sua beleza, não admitia ao seu lado uma mulher imperfeita. Óba compreendeu então como Oyá a enganou. Shangó soltando fogo pelos olhos a abraçou pela última vez e lhe disse que ela seria sua única e verdadeira mulher, mas não teriam mais relações, mas a respeitaria por conta de seu sacrifício e ela sempre seria a primeira entre todas.

Óba ficou muito envergonhada. A rainha das rainhas foi visitar seu pai Obatalá e enquanto caminhava até o seu palácio, suas lágrimas brotaram naturalmente deixando em seu rastro um rio caudaloso, que arrasava tudo o que encontrava pela frente e toda a natureza se arqueava diante dela e saudava as lágrimas vertidas pelo coração destroçado de Óba.

Obatalá ao ver Óba que lhe agradecia por ele ter lhe dado seus dons divinos, compreendeu a traição de Oyá e isso foi a grande decepção de Óba, que não compreendia as falsidades humanas. Por isso ele concedeu o que sua filha havia lhe pedido: “Quero ir onde ninguém possa me ver. Quero a tranquilidade do que não existe, quero viver com os mortos, com os espíritos, onde ninguém possa me fazer mal. O cemitério será, de agora em diante, meu Ilé (casa)”.

Agradeceu outra vez seu pai e foi despedir-se de sua irmã Oshún, quem a recebeu em seu rio revolto e afluente das lágrimas de Óba. As duas irmãs se uniram mais do que nunca e se formou então um grande redemoinho no qual Óba se transportou do mundo dos vivos para o mundo dos mortos e deixou Oshún, que de agora em diante, seria a única que poderia comunicar-se com ela, encarregada dos assuntos na terra dos Orishás.

Ifá Ni L’Órun
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